A parcela do financiamento chega e leva um pedaço enorme do seu salário. Você paga em dia, paga há anos, e a dívida parece que não diminui. Se essa é a sua realidade, existe um caminho legal para buscar a redução de parcelas: a revisão do contrato na Justiça.

Não se trata de calote nem de fugir da dívida. A redução de parcelas acontece quando o juiz reconhece que o banco cobrou juros acima do que o mercado pratica. O contrato é recalculado e a parcela cai para um valor justo.

redução de parcelas

O que diz a lei sobre a redução de parcelas

O Código de Defesa do Consumidor permite revisar cláusulas que colocam você em desvantagem exagerada. E o Superior Tribunal de Justiça já definiu a régua para os juros bancários (Tema 28): quando a taxa de juros do contrato fica muito acima da taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, o juiz pode reduzir os juros para essa média.

Funciona como comparar preço de mercado. Se o quilo da carne custa 40 reais na cidade inteira e um único açougue cobra 120, tem algo errado ali. Com juros é parecido. O Banco Central publica todo mês a taxa média que os bancos cobram em cada tipo de operação: financiamento de veículo, empréstimo pessoal, cheque especial. Essa média é o parâmetro de comparação.

Um detalhe que confunde muita gente: a comparação é feita com a taxa de juros do contrato (os chamados juros remuneratórios, que são o preço do dinheiro emprestado), e não com o CET, o Custo Efetivo Total. O CET mistura tarifas e seguros no cálculo e serve para outro tipo de análise.

A Justiça também olha a cobrança de juros sobre juros, a chamada capitalização. Ela é permitida em contratos assinados depois de março de 2000, mas precisa estar prevista com clareza no contrato, conforme decidiu o STJ no Tema 953. Quando a cobrança é irregular, o recálculo também derruba a parcela.

Como funciona a redução de parcelas na prática

O caminho até a redução de parcelas segue um passo a passo bem definido.

1. Reúna o contrato e os comprovantes. Contrato de financiamento, carnê ou boletos e extratos de pagamento. Não achou o contrato? O banco é obrigado a fornecer uma cópia quando você pede.

2. Identifique a taxa de juros. Ela aparece no quadro resumo do contrato, em percentual ao mês e ao ano. Anote também a data da assinatura.

3. Compare com a média do Banco Central. No site oficial do Banco Central você encontra a taxa média de cada operação, mês a mês. Compare a taxa do seu contrato com a média do mesmo período e do mesmo tipo de operação.

4. Faça o cálculo revisional. Um cálculo técnico mostra quanto da parcela vem de juros acima da média, se há juros sobre juros irregulares e qual seria o valor correto da prestação.

5. Entre com a ação revisional. É o processo para revisar o contrato. Nele, o juiz analisa a taxa cobrada, a média do Banco Central e as cláusulas do contrato. Explicamos os detalhes no artigo sobre como funciona a revisão judicial de financiamento.

6. Recálculo e devolução. Se o juiz reconhece o excesso, os juros caem para a média de mercado e as parcelas são recalculadas dali em diante. O que você pagou a mais pode ser devolvido, em muitos casos em dobro.

O que fazer agora

Se a sua parcela pesa demais no orçamento, comece guardando os documentos: contrato, boletos e comprovantes de pagamento. Eles são a base de qualquer pedido de redução de parcelas.

Depois, desconfie de renegociações apressadas. O banco pode oferecer uma parcela menor esticando o prazo, o que muitas vezes aumenta o total pago no final. Antes de assinar qualquer aditivo, compare os números.

Por fim, busque uma análise técnica do contrato. Um advogado que atua com contratos bancários consegue verificar a taxa, comparar com a média do Banco Central e estimar o novo valor da prestação. Já mostramos quanto a Justiça pode reduzir os juros do financiamento em outro artigo do blog.

Erros comuns de quem busca a redução de parcelas

Parar de pagar por conta própria. O atraso gera juros de mora, negativação e, no financiamento de veículo, pode levar à apreensão do carro. A revisão pode ser pedida com o contrato em dia.

Comparar a parcela com o CET. A régua da Justiça é a taxa de juros do contrato contra a média do Banco Central. Usar o CET na comparação enfraquece o pedido.

Achar que todo juro alto é abusivo. A lei não fixa um teto. O que a Justiça exige é uma diferença significativa entre a taxa do contrato e a média de mercado da época.

Assinar refinanciamento sem ler. Trocar de dívida sem cálculo costuma só empurrar o problema, com mais juros embutidos.

Esperar o contrato terminar. Quanto antes a revisão começa, maior o efeito da redução de parcelas sobre as prestações que ainda vão vencer.

Perguntas frequentes sobre redução de parcelas

Preciso parar de pagar para pedir a revisão?

Não. A ação revisional pode ser proposta com as parcelas em dia. Manter o pagamento evita negativação e, no caso de veículo, protege contra a apreensão.

Quanto a parcela pode diminuir?

Depende da distância entre a taxa do seu contrato e a média do Banco Central na data da assinatura. Cada contrato tem um resultado próprio, por isso o cálculo prévio é tão importante.

A redução de parcelas vale para qual tipo de contrato?

Financiamento de veículo, empréstimo pessoal, consignado, cheque especial e cartão de crédito. Em todos eles o Banco Central divulga a taxa média que serve de comparação.

Estou com o nome negativado. Posso pedir mesmo assim?

Pode. A negativação não impede a revisão do contrato. Em alguns casos, o juiz pode até suspender a cobrança e a negativação enquanto o processo corre.

O banco pode tomar meu carro durante o processo?

Se as parcelas continuarem sendo pagas, não há atraso que justifique a apreensão. Por isso a orientação é manter os pagamentos enquanto a revisão tramita.

Recebo de volta o que paguei a mais?

Quando a Justiça reconhece a cobrança indevida, o valor pago em excesso deve ser devolvido. O STJ entende que essa devolução pode ser em dobro quando a cobrança contraria a boa-fé.

Conclusão

A redução de parcelas pela Justiça não é promessa milagrosa. É um direito do consumidor que se aplica quando os juros do contrato passam, com folga, da taxa média divulgada pelo Banco Central. Com os documentos certos e um cálculo bem feito, é possível buscar uma prestação compatível com a lei e ainda recuperar valores pagos a mais.

Se você desconfia que está pagando juros acima do que a lei permite, procure um advogado especialista em Direito Bancário de sua confiança. Cada contrato tem detalhes próprios e merece análise individual.

Dr. Cristian Eduard Hartmann (OAB-RS 121.310)

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