Muita gente sente que a parcela está pesada, mas não sabe dizer se aquilo é caro ou se é abusivo. São coisas diferentes. E existe um jeito de tirar essa dúvida sem depender do palpite de ninguém: dá para calcular juros abusivos com o próprio contrato na mão e um dado público que o Banco Central publica todo mês.

A lógica é a mesma de conferir preço de mercado antes de comprar. Se todo mundo vende o quilo do arroz por oito reais e um mercado cobra vinte e cinco, você percebe na hora que tem algo errado. Com dinheiro emprestado funciona igual. O guia abaixo mostra o passo a passo para calcular juros abusivos, o que a lei considera de fato abusivo e o que fazer depois que a conta fecha.

calcular juros abusivos

O que a lei diz antes de você calcular juros abusivos

No Brasil não existe um teto fixo de juros para bancos. Aquela ideia de que juros acima de 12% ao ano são ilegais está ultrapassada e não vale para instituições financeiras. Por isso o parâmetro é outro.

A Justiça usa a comparação com a taxa média de mercado, que é a média cobrada pelos bancos naquele mesmo tipo de operação, no mesmo período, divulgada pelo Banco Central. Esse é o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema 28, que serve de referência para todos os processos sobre o assunto. Você pode consultar as séries oficiais na página de taxas de juros de operações de crédito do Banco Central e conferir os julgados no portal do Superior Tribunal de Justiça.

Duas observações importantes antes de calcular juros abusivos:

  1. O número que entra na comparação é a taxa de juros remuneratórios do contrato, ou seja, o preço do dinheiro emprestado. Não é o CET (Custo Efetivo Total), que embute tarifas e seguros e serve para outra análise. Se quiser entender essa diferença, vale ler o artigo sobre o Custo Efetivo Total e o que ele esconde.
  2. Estar um pouco acima da média não significa contrato ilegal. A Justiça exige uma diferença significativa em relação à taxa média de mercado. Um contrato meio ponto acima da média dificilmente será considerado abusivo. Um contrato com o dobro da média já chama atenção.

Como calcular juros abusivos em 7 passos

Este é o roteiro usado na análise inicial de um contrato bancário. Dá para fazer em casa, com calma, em menos de uma hora.

calcular juros abusivos comparando com a taxa média de mercado

Passo 1. Junte o contrato completo. Não basta o carnê nem o extrato do aplicativo. Você precisa do contrato assinado, com o quadro-resumo onde aparecem os valores e as taxas.

Passo 2. Localize a taxa de juros mensal e anual. Ela costuma estar no quadro-resumo, escrita como “taxa de juros remuneratórios” ou apenas “taxa de juros”. Anote as duas, a mensal e a anual.

Passo 3. Identifique o tipo exato da operação. Financiamento de veículo, crédito pessoal, consignado, cheque especial e cartão têm médias muito diferentes. Comparar financiamento de carro com cheque especial não serve para nada.

Passo 4. Anote a data da assinatura. A comparação precisa ser feita com a média do mês em que o contrato foi fechado, não com a média de hoje.

Passo 5. Busque a taxa média no Banco Central. No site do BACEN, na seção de estatísticas de taxas de juros, escolha o tipo de operação, o mês e o ano. Você vai encontrar a média praticada pelo mercado e também a taxa de cada instituição.

Passo 6. Compare os dois números. Aqui é onde você de fato consegue calcular juros abusivos. Divida a taxa do seu contrato pela taxa média de mercado. Se o resultado for 1,2, sua taxa está 20% acima da média. Se for 2, está no dobro.

Passo 7. Cheque a capitalização. Multiplique a taxa mensal por 12. Se a taxa anual do contrato for maior que esse resultado, existe capitalização de juros, o famoso juros sobre juros. Ela é permitida em contratos assinados depois de março de 2000, desde que esteja pactuada, conforme o Tema 953 do STJ. O detalhe é que ela precisa estar clara no contrato, e nem sempre está. Isso está explicado melhor no texto sobre quando a capitalização de juros é válida.

O que fazer agora se a conta apontou diferença

Encontrou uma diferença grande? O próximo passo não é parar de pagar. Interromper as parcelas piora a sua situação e pode acelerar uma ação do banco.

O caminho é reunir a documentação e levar para análise técnica. Calcular juros abusivos em casa serve para acender o alerta, mas o pedido judicial exige planilha de recálculo feita por profissional, comparando parcela a parcela o que foi cobrado e o que seria devido.

Se a Justiça reconhecer a abusividade, o efeito prático costuma ser a redução da taxa para o patamar da taxa média de mercado, com recálculo de todas as parcelas. O que você já pagou a mais pode ser devolvido ou abatido do saldo. Desde o julgamento do EAREsp 676.608/RS, a devolução em dobro de valores cobrados indevidamente não depende mais de provar que o banco agiu de má-fé. Cada caso, porém, depende do que o juiz reconhecer.

Documentos que você vai precisar

Antes de procurar orientação, separe o contrato assinado com o quadro-resumo, o carnê ou os boletos das parcelas, o extrato de evolução da dívida fornecido pelo banco e o comprovante de quanto já foi pago. Com esses quatro documentos, quem for calcular juros abusivos consegue montar a planilha comparativa sem depender de estimativa. Faltando o contrato, o pedido de exibição pode ser feito antes ou dentro do próprio processo.

Também vale anotar se houve refinanciamento ou renegociação no meio do caminho. Cada novo contrato substitui o anterior e muda a taxa de referência, então a comparação precisa ser feita contrato por contrato, e não sobre a soma de tudo.

Nenhuma ação garante resultado. O que existe é fundamento jurídico e precedente para discutir. Já tratamos aqui do cenário de quem descobriu que o banco cobrou juros acima do mercado e de como comparar os juros do contrato com a média do Banco Central passo a passo.

Erros comuns na hora de calcular juros abusivos

Estes são os deslizes que mais aparecem em quem tenta calcular juros abusivos sozinho e chega a uma conclusão errada.

erros ao calcular juros abusivos no contrato bancário

Usar o CET como parâmetro. É o erro mais frequente. O CET sempre parece altíssimo porque soma tarifas, seguro e registro. A comparação com o Banco Central se faz com os juros remuneratórios.

Comparar com a média de hoje. Se você assinou em 2022, a média de 2022 é a que vale.

Misturar tipos de crédito. Cheque especial tem média muito mais alta que financiamento de veículo. Comparar os dois distorce tudo.

Achar que qualquer diferença resolve. Um contrato levemente acima da média não sustenta ação. A discussão fica forte quando a diferença é expressiva.

Confiar só no valor da parcela. Parcela alta pode ser só prazo curto ou entrada baixa. O que revela abuso é a taxa, não o valor mensal.

Perguntas frequentes

Preciso ser advogado para calcular juros abusivos?

Não. Os dados do Banco Central são públicos e qualquer pessoa consegue consultar. O que exige profissional é a planilha de recálculo e o pedido em juízo.

Meu contrato não mostra a taxa de juros. E agora?

Você tem direito a pedir ao banco a cópia integral do contrato e a planilha de evolução da dívida, com base no artigo 6º, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor. Se o banco não entregar, isso pode ser pedido na Justiça.

Juros acima de 12% ao ano são sempre ilegais?

Não. Esse limite não se aplica a bancos. O critério válido é a comparação com a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central.

Dá para calcular juros abusivos de um contrato já quitado?

Dá. Contrato encerrado também pode ser revisado, e valores pagos a mais podem ser cobrados de volta, respeitados os prazos legais de prescrição.

E se eu estiver com as parcelas atrasadas?

Ainda assim é possível discutir. Em muitos casos a cobrança de juros muito acima da média é justamente um dos argumentos usados na defesa de quem já está em atraso.

Quanto tempo leva para calcular juros abusivos de um contrato?

Com todos os documentos em mãos, a conferência inicial sai no mesmo dia. A planilha completa de recálculo, que serve para instruir o processo, costuma levar mais tempo porque envolve refazer parcela a parcela toda a evolução da dívida.

Conclusão

Calcular juros abusivos não é um bicho de sete cabeças. É contrato na mão, taxa do contrato de um lado, taxa média de mercado do outro, e uma divisão simples. O resultado não decide o processo, mas mostra se vale a pena investigar.

Se você desconfia que está pagando juros acima do que a lei permite, fale com um advogado especialista em Direito Bancário de sua confiança. Cada contrato tem detalhes próprios e merece análise individual.

Dr. Cristian Eduard Hartmann (OAB-RS 121.310)

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